BC dá mais peso à cibersegurança e endurece controle sobre o Pix
Cibersegurança – O Banco Central intensificou o processo de fortalecimento das normas de segurança digital aplicáveis às instituições do Sistema Financeiro Nacional. A nova norma regulatória aumenta o nível de comprovação técnica, endurece controles em infraestruturas ligadas ao Pix e amplia a cobrança por governança e rastreabilidade. Na prática, o grau de maturidade tecnológica passa a influenciar diretamente a percepção de risco, com impactos sobre auditorias, resposta a incidentes e atuação supervisora.
Especialistas avaliam que o movimento representa uma inflexão importante no modelo regulatório. Se antes predominava uma abordagem baseada em políticas formais e documentação declaratória, agora o foco se desloca para a comprovação técnica contínua. As regras deixam de se limitar ao cumprimento formal e passam a exigir capacidade operacional comprovada, sustentada por registros, trilhas de auditoria e histórico de melhorias.
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Entre as exigências mais objetivas está a obrigatoriedade de testes de intrusão anuais realizados por profissionais independentes. Os resultados, bem como os planos de ação decorrentes, deverão ser documentados e preservados por cinco anos. A medida reduz o espaço para controles meramente declaratórios, ao forçar as instituições a identificar vulnerabilidades, priorizar correções e manter um ciclo de remediação auditável.
Outro eixo relevante envolve a comunicação eletrônica com a RSFN, especialmente em ambientes relacionados ao Pix e ao Sistema de Transferência de Reservas. As novas diretrizes reforçam requisitos técnicos e determinam maior segregação de ambientes, além de medidas como autenticação multifatorial e restrições voltadas à diminuição da superfície de ataque associada a credenciais e ativos sensíveis. Em determinados contextos, também fica vedado o acesso de terceiros a chaves privadas.
Para lideranças de tecnologia e risco, o sinal é de que integrações, gestão de identidade, certificados digitais e controles de acesso deixam de ser apenas decisões arquitetônicas e passam a configurar fronteiras críticas de risco operacional. Em um ecossistema altamente interdependente, fragilidades em um único elo podem comprometer a continuidade de serviços, gerar efeitos em cadeia e abalar a confiança no sistema financeiro como um todo.
A regulamentação também amplia o foco sobre softwares e serviços contratados de terceiros, consolidando a visão de que o risco cibernético é estruturalmente interconectado. A terceirização de atividades não transfere a responsabilidade da instituição supervisionada; ao contrário, aumenta a necessidade de diligência e monitoramento sobre dependências consideradas críticas.
Esse entendimento dialoga com o endurecimento paralelo das exigências para provedores de tecnologia do ecossistema financeiro, como os PSTIs. Na prática, contratos, acordos de nível de serviço (SLAs), direitos de auditoria, controle de subcontratações e planos de contingência ganham relevância estratégica. A gestão da cadeia de fornecedores deixa de ser um tema restrito às áreas de compras ou operações e passa a ocupar espaço na agenda dos conselhos.
A mudança não é apenas normativa, mas também cultural. Incidentes passam a ser avaliados não somente pelo fato ocorrido, mas pela forma como foram geridos, registrados e comunicados. A divulgação pública de exposição de chaves Pix por uma instituição, registrada pela autoridade monetária, sinaliza um padrão de transparência que altera incentivos internos — da equipe técnica à alta administração — quanto à prontidão e à governança.
Nesse contexto, ganha centralidade uma agenda permanente de gestão de riscos cibernéticos com indicadores executivos claros: volume de vulnerabilidades por nível de criticidade, prazos de correção, realização de retestes, relatórios periódicos a comitês e disciplina na remediação. Sem esse ciclo estruturado, o risco deixa o campo teórico e se materializa em maior probabilidade de interrupções, custos elevados de resposta e exposição a medidas supervisoras, além de danos reputacionais.
O efeito mais amplo é a consolidação de uma “economia da resiliência digital”, em que a robustez dos controles passa a influenciar a percepção de solidez institucional. Isso impacta tanto a confiança do mercado quanto a capacidade de expansão de produtos digitais. Ao elevar o padrão mínimo e exigir comprovações periódicas, o regulador enquadra a cibersegurança como condição material para a continuidade dos negócios, alinhando o país a tendências internacionais de supervisão no setor financeiro.
Para bancos e fintechs, o diagnóstico é direto: as novas exigências tendem a elevar custos de conformidade no curto prazo, mas também podem atuar como mecanismo de diferenciação competitiva. Instituições com governança consolidada, documentação consistente e protocolos de resposta bem treinados tendem a enfrentar menor atrito com a supervisão e preservar reputação em cenários de estresse. Já organizações com baixa disciplina de evidências ou dependência excessiva de terceiros sem visibilidade adequada podem sofrer maior volatilidade reputacional e pressão por ajustes estruturais.
Com o prazo de adaptação se aproximando de 1º de março de 2026, o debate deixa o campo do planejamento e entra definitivamente na fase de execução. O mercado passa a distinguir quem incorporou as regras de cibersegurança ao modelo operacional de forma estrutural e quem ainda trata o tema como obrigação acessória. A diferenciação, agora, ocorre menos pelo discurso e mais pela capacidade de demonstrar, com evidências concretas, que os controles funcionam sob escrutínio contínuo.
(Com informações de It Show)
(Foto: Reprodução/Freepik/thidada6242)
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