{"id":18142,"date":"2026-05-04T14:33:47","date_gmt":"2026-05-04T17:33:47","guid":{"rendered":"https:\/\/fenati.org.br\/?p=18142"},"modified":"2026-05-04T17:05:05","modified_gmt":"2026-05-04T20:05:05","slug":"opiniao-debate-6x1-preconceito-de-classe-tona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/homolog.fenati.org.br\/en\/opiniao-debate-6x1-preconceito-de-classe-tona\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O debate sobre a 6\u00d71 e o preconceito de classe que veio \u00e0 tona"},"content":{"rendered":"<p><strong>Preconceito de classe &#8211;<\/strong> H\u00e1 momentos em que uma discuss\u00e3o pol\u00edtica funciona como luz acesa num quarto escuro, revelando onde alguns bichos estavam o tempo todo. O debate em torno do fim da escala 6\u00d71 (apoiado por 71% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, segundo o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Datafolha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Datafolha<\/a>) vem sendo exatamente isso. Uma lanterna apontada para o ch\u00e3o de uma sociedade que nunca resolveu sua rela\u00e7\u00e3o com o trabalhador pobre, mas que, por anos, manteve esse desprezo em tom mais discreto, quase civilizado.<\/p>\n<p>Quando o projeto come\u00e7ou a ganhar tra\u00e7\u00e3o, o contra-ataque n\u00e3o veio s\u00f3 com argumentos econ\u00f4micos ou jur\u00eddicos, mas tamb\u00e9m com veneno destilado, com a soberba de quem nunca precisou acordar \u00e0s quatro da manh\u00e3 para pegar tr\u00eas condu\u00e7\u00f5es at\u00e9 o trabalho, com a crueldade de quem confunde descanso com vadiagem e direito com privil\u00e9gio. O que emergiu desse debate n\u00e3o foi uma novidade: foi a superf\u00edcie de um preconceito de classe enraizado e antigo que, diante da amea\u00e7a de perder m\u00e3o de obra barata e exausta, perdeu o pudor de se mostrar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fenati.org.br\/tecnologia-autonoma-monitora-conversas-cachalotes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>LEIA: Tecnologia aut\u00f4noma monitora \u2018conversas\u2019 de cachalotes em tempo real<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Engana-se quem acha que esses sentimentos surgiram do nada por conta do atual governo. Diante disso, h\u00e1 quem diga que o Brasil de hoje est\u00e1 criando \u201c\u00f3dio entre classes\u201d, quando ele sempre esteve ali, no coment\u00e1rio do jantar de fam\u00edlia, na reclama\u00e7\u00e3o do patr\u00e3o que \u201cn\u00e3o acha ningu\u00e9m que queira trabalhar\u201d pela mixaria que ele quer pagar, na cara feia para o empregado que ousou tirar f\u00e9rias.<\/p>\n<p>O que mudou \u00e9 que o contra-ataque de parte do setor empresarial e da extrema-direita ao projeto do fim da 6\u00d71 deu a esses preconceitos uma plataforma, uma legitimidade e uma temperatura. Sa\u00edram do arm\u00e1rio vestidos de argumento econ\u00f4mico, de preocupa\u00e7\u00e3o com a na\u00e7\u00e3o, de moralidade religiosa. Mas continuaram sendo o que sempre foram: desprezo pela situa\u00e7\u00e3o do trabalhador pobre.<\/p>\n<p>Exemplos dos \u00faltimos meses, desde que o debate ganhou as ruas, s\u00e3o did\u00e1ticos.<\/p>\n<p>O ex-governador de Minas Gerais e pr\u00e9-candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica Romeu Zema (Novo) defendeu, no Dia do Trabalhador,\u00a0flexibilizar as leis para permitir que crian\u00e7as trabalhem. E prometeu: n\u00f3s vamos mudar isso a\u00ed, indo na contram\u00e3o de um dos maiores esfor\u00e7os globais, capitaneado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas: a elimina\u00e7\u00e3o desse tipo de explora\u00e7\u00e3o. Hoje, s\u00e3o 138 milh\u00f5es em trabalho infantil.<\/p>\n<p>Zema copia, como estrat\u00e9gia eleitoral, declara\u00e7\u00f5es do ent\u00e3o presidente Jair Bolsonaro, que defendia ver os filhos suando no batente. Dos outros, no caso. At\u00e9 por que n\u00e3o se teve not\u00edcia de que sua filha ca\u00e7ula trabalhasse durante sua gest\u00e3o para ajudar a sustentar o Pal\u00e1cio do Alvorada.<\/p>\n<p>Muitos dizem que trabalharam quando crian\u00e7a e usam a experi\u00eancia como exemplo. Vale, contudo, lembrar que explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa ser heredit\u00e1ria. Al\u00e9m disso, enquanto crian\u00e7as mais ricas acompanham os pais nos neg\u00f3cios da fam\u00edlia, as mais pobres v\u00e3o ao sem\u00e1foro, \u00e0 casa de farinha, \u00e0 faxina na casa dos outros. Discursos que apontam o trabalho desde cedo como forma de moldar car\u00e1ter e tirar do crime s\u00e3o comuns no pa\u00eds, com o trabalho infantil sendo ministrado como rem\u00e9dio \u00e0 pobreza. Por isso, recebem aplausos do andar de cima.<\/p>\n<p>Um v\u00eddeo que circula nas redes mostrou uma trabalhadora dom\u00e9stica sendo chamada de pregui\u00e7osa e vagabunda por seu patr\u00e3o ao pedir folga no Dia dos Trabalhadores. Pelo v\u00eddeo, ela acabou pedindo demiss\u00e3o. O patr\u00e3o, ao que tudo indica, nem rico era, mas reproduzia os argumentos que deve ter lido a vida inteira na Universidade do WhatsApp.<\/p>\n<p>Ressalte-se o \u00f3bvio: o Primeiro de Maio n\u00e3o \u00e9 o dia em que trabalhadores comemoram o trabalho, mas em que a hist\u00f3ria registra uma luta (frequentemente regada com seu sangue e sua morte) por direitos que muitos hoje consideram garantidos e naturais. Pedir folga nesse dia n\u00e3o \u00e9 ironia, \u00e9 coer\u00eancia hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Em uma rodovia entre Holambra e Jaguari\u00fana, no interior de S\u00e3o Paulo, um outdoor resumiu em poucas palavras uma das mais persistentes mentiras que circulam sobre os trabalhadores pobres no Brasil: \u201cDeixe de ser escravo (da sua bolsa fam\u00edlia). Procure uma atividade remunerada.\u201d<\/p>\n<p>A mensagem \u00e9 econ\u00f4mica na forma e devastadora no conte\u00fado. Parte de uma premissa falsa (a de que benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia s\u00e3o pessoas que escolheram a ociosidade) para construir um argumento que culpa a v\u00edtima e absolve o sistema. A esmagadora maioria dos benefici\u00e1rios do programa trabalha, sim. Trabalha informalmente, trabalha com remunera\u00e7\u00e3o insuficiente, trabalha em condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o garantem sa\u00edda da mis\u00e9ria sem um complemento.<\/p>\n<p>O que o outdoor n\u00e3o diz \u00e9 que mais de 2.069.776 fam\u00edlias haviam deixado o benef\u00edcio de janeiro a outubro do ano passado porque conseguiram renda pr\u00f3pria. Melhores condi\u00e7\u00f5es de emprego e remunera\u00e7\u00e3o digna \u00e9 que atraem trabalhadores. N\u00e3o o aumento da vulnerabilidade causado pelo desmanche de programas sociais. Mas essa \u00e9 uma conversa que o dono do outdoor claramente n\u00e3o quer ter, bem como aqueles que acham que pobre n\u00e3o gosta de trabalhar.<\/p>\n<p>O deputado federal Marcos Pereira, presidente do partido Republicanos, deu uma entrevista \u00e0 Folha de S. Paulo que, se n\u00e3o fosse real, pareceria s\u00e1tira. Preocupado com o que chamou de competitividade do setor produtivo, o parlamentar desfiou uma s\u00e9rie de afirma\u00e7\u00f5es sobre trabalhadores que revelam com precis\u00e3o cir\u00fargica como parte da elite pol\u00edtica pensa sobre quem vive do sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3cio demais faz mal\u201d, disse. Gente que parou de trabalhar \u201cmorreu r\u00e1pido, ficou doente\u201d. Com o dia extra de descanso, o trabalhador \u201cvai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar\u201d. E ent\u00e3o sintetizou: \u201cQual o lazer de um pobre numa comunidade?\u201d Ou ainda: \u201cNum sert\u00e3o l\u00e1 do Nordeste?\u201d<\/p>\n<p>Leia novamente. Um deputado federal, eleito para representar o povo brasileiro, questionando publicamente para que serviria o tempo livre de um trabalhador pobre do Nordeste \u2014 com o subtexto de que, sem trabalho, ele inevitavelmente vai se degradar. N\u00e3o \u00e9 preocupa\u00e7\u00e3o. \u00c9 paternalismo com roupagem de argumento econ\u00f4mico. \u00c9 a cren\u00e7a, explicitada sem pudor, de que o trabalhador pobre n\u00e3o tem direito ao descanso porque n\u00e3o sabe o que fazer com ele.<\/p>\n<p>Se o caso do deputado revela o preconceito da elite pol\u00edtica, o caso da desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justi\u00e7a do Par\u00e1, revela algo ainda mais perturbador: o uso distorcido da linguagem da luta pelos direitos para proteger os privil\u00e9gios de alguns.<\/p>\n<p>A magistrada afirmou que o fim dos chamados \u201cpenduricalhos\u201d (os adicionais que comp\u00f5em os supersal\u00e1rios de servidores p\u00fablicos e que v\u00eam sendo enfrentados em um esfor\u00e7o puxado pelo ministro Fl\u00e1vio Dino, do STF) levaria ju\u00edzes a um \u201cregime de escravid\u00e3o\u201d. Segundo o jornalista Fausto Macedo, do jornal O Estado de S. Paulo, ela recebeu R$ 91 mil l\u00edquidos em um \u00fanico m\u00eas.<\/p>\n<p>Noventa e um mil reais l\u00edquidos. Em um m\u00eas.<\/p>\n<p>A palavra escravid\u00e3o, usada por algu\u00e9m nessa condi\u00e7\u00e3o financeira, n\u00e3o \u00e9 apenas inapropriada, mas uma agress\u00e3o. O Par\u00e1, estado onde ela serve, \u00e9 o que tem o maior n\u00famero de trabalhadores resgatados de condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o no acumulado desde 1995, quando o governo federal criou o sistema de fiscaliza\u00e7\u00e3o e combate ao trabalho escravo. Participei presencialmente de um ros\u00e1rio de opera\u00e7\u00f5es de resgates, acompanhando o poder p\u00fablico, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas por l\u00e1 e o que vi eram pessoas que trabalhavam na jornada 7\u00d70, sem comida decente, em alojamentos podres, apanhando e sendo amea\u00e7adas de morte se parassem de ro\u00e7ar juquira, fazer cerca e produzir carv\u00e3o.<\/p>\n<p>Usar a palavra escravid\u00e3o para descrever a possibilidade de redu\u00e7\u00e3o salarial para valores que ainda estariam entre os maiores do pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 um erro de linguagem, mas uma demonstra\u00e7\u00e3o de qu\u00e3o distante certos grupos est\u00e3o da realidade dos que trabalham de verdade. E de qu\u00e3o naturalmente esse distanciamento se traduz em desprezo.<\/p>\n<p>E, com tudo isso, h\u00e1 o front digital. Nas redes sociais (especialmente no TikTok e no Instagram) proliferaram v\u00eddeos de influenciadores com uma mensagem em comum: quem quer descansar dois dias por semana \u00e9 vagabundo, CLT \u00e9 coisa de fracassado e direitos trabalhistas corroem a dignidade do trabalhador. Outros foram mais longe, cavalgando distor\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas para afirmar que o fim da 6\u00d71 \u00e9 coisa do diabo e que apenas atrav\u00e9s do trabalho ininterrupto Deus demonstra que aprecia o fiel.<\/p>\n<p>\u00c9 a sacraliza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o. A transforma\u00e7\u00e3o do esgotamento em virtude, do descanso em pecado e da luta por direitos em subvers\u00e3o moral. Quando esse pacote \u00e9 convocado para justificar que o trabalhador deve se contentar com seis dias de trabalho para um de descanso (a mesma propor\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento, mas sem o amor ao pr\u00f3ximo do Novo Testamento), estamos diante de um projeto de domestica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O Datafolha aponta que 71% apoiam o fim da escala 6\u00d71 sem redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio. N\u00e3o s\u00e3o todos sindicalistas, n\u00e3o s\u00e3o todos de esquerda, n\u00e3o s\u00e3o todos pobres. Mas s\u00e3o pessoas que trabalham, que conhecem o cansa\u00e7o, que entendem o que significa n\u00e3o ter tempo para a fam\u00edlia, para a sa\u00fade, para si mesmas. A maioria silenciosa que, quando ouvida, diz que quer mais vida fora do trabalho e menos burnout.<\/p>\n<p>O debate em torno desse desejo leg\u00edtimo trouxe \u00e0 superf\u00edcie algo que o Brasil prefere n\u00e3o encarar diretamente: que h\u00e1 uma parcela da sociedade (empres\u00e1rios, pol\u00edticos, influenciadores, magistrados, isso sem contar os Guerreiros do Capital Alheio) que v\u00ea o trabalhador pobre como um recurso a ser administrado, n\u00e3o como um ser humano com direitos a serem respeitados.<\/p>\n<p>Que o descanso deles \u00e9 amea\u00e7a, mas o supersal\u00e1rio do funcionalismo e os lucros trazidos pelo rentismo s\u00e3o sagrados. Que o benefici\u00e1rio de programa social \u00e9 pregui\u00e7oso por defini\u00e7\u00e3o, mas o empres\u00e1rio que se beneficiou da heran\u00e7a, essa maravilhosa meritocracia passada de pai para filho, \u00e9 empreendedor por natureza.<\/p>\n<p>Esses sentimentos sempre existiram. A Lei \u00c1urea, em 13 de maio de 1888, representou o fim do trabalho escravo formal no Brasil, mas n\u00e3o veio com a\u00e7\u00f5es reais de integra\u00e7\u00e3o daquela massa liberta \u00e0 cidadania, nem de mudan\u00e7a simb\u00f3lica do sentido do trabalho. Mais de tr\u00eas s\u00e9culos de escravid\u00e3o forjaram a forma como o pa\u00eds trata quem pouco t\u00eam. O que temos visto nos \u00faltimos tempos \u00e9 exemplo disso.<\/p>\n<p>O que o debate sobre o fim da 6\u00d71 fez foi dar a tudo isso uma ocasi\u00e3o para sair do arm\u00e1rio e mostrar, mais uma vez, que a luta por direitos trabalhistas no Brasil nunca foi apenas uma disputa jur\u00eddica ou econ\u00f4mica. \u00c9, antes de tudo, uma disputa sobre quem merece ser tratado como gente.<\/p>\n<p><em>Por <strong>Leonardo Sakamoto<\/strong>, jornalista e doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade de S\u00e3o Paulo. Professor de Jomalismo na PUC-SP. Foi pesquisador visitante do Departamento de Pol\u00edtica da New School, em Nova York (2015-2016) e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). \u00c9 autor de &#8220;Pequenos Contos Para Come\u00e7ar o Dia&#8221; (2012), &#8220;O que Aprendi Sendo Xingado na Internet&#8221; (2016), &#8220;Escravid\u00e3o Contempor\u00e2nea&#8221; (2020), entre outros livros.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>*Texto publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/colunas\/leonardo-sakamoto\/2026\/05\/02\/chance-de-fim-da-6x1-tirou-do-armario-quem-despreza-trabalhador-pobre.htm?cmpid=copiaecola\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">UOL<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Letycia Bond\/Ag\u00eancia Brasil)<\/strong><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Argumentos contra o fim da a 6\u00d71 misturam economia, moralidade e preconceito para manter desigualdades, analisa Leonardo Sakamoto<\/p>","protected":false},"author":10,"featured_media":18144,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[13],"class_list":["post-18142","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-sindical"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - 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